Joana Levi




dramma


O homem provisório

Eva Costa



Grande Sertão. A grande epopéia brasileira. Guerra paz ódio amor. Trata-se, poderíamos dizer, de um romance de formação, João Guimarães nos narra uma paisagem. Grande Sertão. O Sertão é a região semi-árida do Nordeste brasileiro, mas é também aquela zona dentro de cada um de nós, lugar privilegiado de encontro/desencontro com o outro. Vazio acolhedor. Esta palavra ou som, Sertão retorna e transforma-se no leitmotiv desta apresentação, concerto de ícones de representação teatral.

São narrados pelas cenas os temas e os momentos fundamentais da história de Riobaldo, o herói de Guimarães. Fabbrica Europa escolhe hospedar, exatamente, a estréia européia de O Homen provvisorio, fruto da colaboração entre a Casa Laboratório para as Artes do Teatro de São Paulo e a Fondazione Pontedera Teatro. Roberto Bacci nos antecipa: Nós lamentamos, mas decidimos não nos valermos de legendas, a fala será em língua original, em português.

Escolhe-se não traduzir o texto, escrito além do mais em rima. Negam-nos os instrumentos habituais para compreendê-lo. Assim a palavra, se faz indecifrável elemento sonoro, e torna-se dramaturgia junto a uma luz, uma sombra, a cor de um figurino.

Esta encenação essencial, mas cuidada obsessivamente até o último detalhe, tem um que de ritual. Nisto é ajudada pelo excelente trabalho de pesquisa vocal que Francesca della Monica fez com o grupo. O resultado desta cooperação entre Itália e Brasil que já dura cinco anos, desta vez é uma espécie de rito de iniciação.

Assistimos a eles como quem espia por uma porta semi-aberta, em direção à vida de um outro, de uma cultura estranha. Um espetáculo que não parece pensado para nós, a quem é permitido participar talvez na ponta dos pés, reforçando assim a impressão de estar assistindo a um desvelamento. É de fato sobre três véus sobrepostos e correntes que se joga todo o aporte cenográfico, e também o desenrolar da história.

O crescimento metamórfico do protagonista é um espelho no qual nos refletimos em três momentos diversos. Exílio inicial - redescobrimento da mecânica sensorial, lá aonde a lógica não chega - visão nova. Quando os códigos racionais fracassam, deixam mais espaço à emotividade, não há dúvida.

Os oito atores "de duas cabeças" são caráteres de um eu primitivo continuamente empenhado em dividir-se ou a tornar a si mesmo. Mascara-se e celebra-se a dualidade, eixo portador da história, que deixa atrás de si toda uma série de aberturas. Primeira entre todas, a ação de hospedar ligada por sua natureza ao duplo.

Deste modo as categorias de tempo e espaço, aquelas com as quais nos colocamos sempre para medir o real, são atravessadas. O tempo é ritmo, o espaço torna-se uma possibilidade. Possibilidade como expressão e compreensão de alguma coisa de diferente, de outro. Uma possibilidade que está na escuta e no deixar-se habitar e que, se fossemos filósofos, chamaríamos de maravilha.

O homem provisorio

Eva Costa



Grande Sertão. La grande epopea brasiliana. Guerra pace odio amore. Si tratta, potremmo dire, di un romanzo di formazione, João Guimarães ci racconta un passaggio. Grande Sertão. Il Sertão è la regione semi-arida del Nord-est brasiliano, ma è anche quella zona dentro ciascuno di noi, luogo privilegiato d'incontro/scontro con l'altro. Vuoto ospitale. Questo parola o suono, Sertão appunto, ritorna e diventa il leitmotiv di questa serata, concerto dalle sembianze di rappresentazione teatrale.

Vengono raccolti dalla scena i temi e i momenti fondamentali della storia di Riobaldo, l'eroe di Guimarães. Fabbrica Europa sceglie di ospitare, appunto, la prima europea di O Homen provvisorio, frutto della collaborazione tra la Casa Laboratorio per le Arti del Teatro di São Paulo e la Fondazione Pontedera Teatro. Robero Bacci ci anticipa:"Ci dispiace, ma abbiamo deciso di non avvalerci di sovratitoli, né sottotitoli, il parlato sarà in lingua originale, in portoghese".

Si sceglie di non tradurre il testo, scritto tra l'altro in rima. Ci negano gli strumenti abituali per comprenderlo. Così la parola, si fa indecifrabile elemento sonoro, e diventa drammaturgia insieme ad una luce, un'ombra, il colore di un abito.

Questa messa in scena essenziale ma curata quasi ossessivamente fino all'ultimo dettaglio, ha un che del rituale. In questo è aiutata dall'eccellente lavoro di ricerca vocale che Francesca della Monica ha compiuto sul gruppo. Il risultato di questa cooperazione tra Italia e Brasile che dura ormai da cinque anni, stavolta è una sorta di rito di iniziazione.

Vi assistiamo come affacciati su una porta semiaperta, verso il mistero della vita di qualcun'altro, di una cultura estranea. Uno spettacolo che non sembra pensato per noi, a cui ci viene permesso di partecipare magari in punta di piedi, rafforzando così l'impressione di stare assistendo ad uno svelamento. E infatti è proprio su tre veli sovrapposti e scorrevoli che si gioca tutto l'apporto scenografico, nonché l'avvicendarsi della storia.

La crescita meta-morfica del protagonista, è uno specchio in cui ci riflettiamo in tre momenti diversi. Spaesamento iniziale - riscoperta della meccanica sensoriale, là dove la logica non arriva - visione nuova. Quando i codici razionali falliscono, lasciano più spazio all'emozionalità, non c'è dubbio.

Gli otto attori "a due teste" sono sagome di un io primitivo continuamente impegnato a dividersi o a tornare a sé stesso. Si "maschera" e si celebra la dualità, asse portante della storia, che lascia dietro di sé tutta una serie di aperture. Prima fra tutte, l'azione dell'ospitare legata per sua natura al doppio.


In questo modo le categorie di tempo e spazio, quelle con cui ci apprestiamo sempre a misurare il reale, sono attraversate. Il tempo è ritmo, lo spazio diventa una possibilità. Possibilità come espressione e comprensione di qualcosa di diverso, di altro. Una possibilità che sta nell'ascolto e nel lasciarsi abitare e che, se fossimo filosofi, chiameremmo meraviglia.