Joana Levi




teatroteatro
23/11/2009

O hóspede secreto

Andrea Porcheddu


Cacá Carvalho, que desta obra é protagonista, se despe, revelando aquele seu corpo exagerado, marcado, gordo. Permanece de meias e boxer, enquanto o servo-secretário, com o seu uniformezinho modesto e apagado, tem o que fazer, aflito, para arrumar, sistematizar, deslocar. Parecem um pouco O Gordo e O Magro, vendo-os juntos. Tanto é de rompante o ator, quanto é retrospectivo e lenhoso o secretário: mas tem mais.



Alguém a definiria como "fábula negra": há uma outra estória - justamente negra, obscura - que escorre subterrânea durante O Hóspede Secreto, primeiro estudo de um novo espetáculo de Roberto Bacci com dramaturgia de Stefano Geraci.

O trabalho é um ato de amor ao teatro, contado em algumas de suas manifestações maiores: Louis Jouvet e Molière. O jogo tem de fato um argumento metateatral: um ator "foge" ou é expulso do teatro - do "seu" teatro - e se refugia em seus aposentos, a dialogar num eterno jogo de papeis com seu secretário.

Vem à mente O Criado de Losey ou, ainda melhor, O camareiro fiel filmado por Peter Yates: em suma, a imutável relação servo-patrão, em que um segue, acode e talvez domina o outro.

O ator está em crise, confronta-se com aqueles personagens amados e odiados, que noite pós noite são sua vida e sua condenação. O que seria um ator sem os seus personagens? Um ator vive somente no momento em que "faz", recita, interpreta um personagem. A sua vida é uma passagem contínua de um personagem a outro: só existe no momento em que trabalha (ou recita, pois dizer se quer). Quando se encontra um ator não se pergunta nunca "como você está?", mas "o que você está fazendo": porque está no "fazer" a sua saúde, a sua vida propriamente dita, a sua identidade. Portanto, aí está Jouvet, com seus conselhos aos jovens atores da Comédie.

Mas quem são, então, esses personagens? Não somos nós mesmos, simplesmente, constrangidos a recitar um personagem, dia após dia, nas nossas brandas existências?

Em O Hóspede secreto, o ator oprimido pelas sombras fecha-se em si, fala o secretário, que solícito o convida continuamente a retornar à vida, ou seja, ao teatro. E para obter o seu objetivo, o secretário não faz nada além de dar a deixa, invocando ou assumindo para si os personagens interpretados pelo ator.

Depois de Jouvet, eis então Molière: Don Giovanni e Sganarello, mas também todos as outras grandes "figuras", do Tartufo ao Misantropo, do Avaro a Messieur Jourdain. Uma galeria de "doentes imaginários" e reais, que são reflexo da hipocondria do ator, com aquela poltrona setecentista que atravessa a cena, capaz de evocar aquela sobre a qual morreu - recitando - o próprio Molière. Eis então que se insinua a fábula negra do espetáculo.

O espaço cênico é uma espécie de quarto, um longo corredor, com o público disposto nas duas alas, mas com luzinhas de ribalta a delimitá-lo: assim que entra, Cacá Carvalho, que desta obra é protagonista, se despe, revelando aquele seu corpo exagerado, marcado, gordo. Permanece de meias e boxer, enquanto o servo-secretário, com o seu uniformezinho modesto e apagado, tem o que fazer, aflito, para arrumar, sistematizar, deslocar.

Parecem um pouco O Gordo e O Magro, vendo-os juntos. Tanto é de rompante o ator, quanto é retrospectivo e lenhoso o secretário: mas tem mais. Tem a fábula negra, tem a morte, em outras palavras o ofegar daquele corpo obeso: que se transforma em ácido e melancólico medo do desaparecimento, do esquecimento, no momento em que - com um jogo todo teatral - o secretário revela-se uma belíssima donzela, em cujo seio cândido e nu está apenas o desesperado atormentador emblema da nostalgia.

Enfim, naquela belíssima mulher - que recita a cena da falsa sedução do Tartufo - sela-se a morte. Olhando aqueles dois corpos que dialogam, iluminados pelas luzes de ribalta, revela-se o hóspede secreto, o convidado de pedra deste espetáculo: no canto exagerado, neurastênico e desesperado do ator, que procura agarrar-se com as unhas e com os dentes à vida, já se faz ouvir um eco fúnebre, o amargo desencanto de quem sabe que deve morrer.

Cacá Carvalho confirma a sua verve interpretativa, capaz de marcar inevitavelmente, para o bem e para o mal, o espetáculo, enquanto surpreende a mutável graça de Joana Levi. Visto no imponente novo Teatro Era de Pontedera, o trabalho é destinado a posteriores desenvolvimentos.

L'ospite segreto

Andrea Porcheddu


Cacá Carvalho, che di questa vicenda è protagonista, si spoglia, svelando quel suo corpo esagerato, segnato, grasso. Resta in calzette e boxer, mentre il servo-segretario, con la sua divisina modesta e spenta, si dà da fare, compunto, per riassettare, sistemare, spostare. Sembrano un pó Stanlio e Ollio, a vederli vicini. Tanto è dirompente l'attore, altrettanto è ritroso e ligneo il segretario: ma c'è di più.



Qualcuno la definirebbe "favola nera": c'è un'altra storia - appunto nera, oscura - che scorre sotterranea durante L'ospite segreto, primo studio di un nuovo spettacolo di Roberto Bacci su drammaturgia di Stefano Geraci.

Il lavoro è un atto d'amore per il teatro, raccontato in alcune delle sue manifestazioni maggiori: Louis Jouvet e Molière. Il gioco ha infatti uno spunto metateatrale: un attore "fugge" o è scacciato, dal teatro - dal "suo" teatro - e si rifugia nelle sue stanze, a dialogare in un eterno gioco di parti con il suo segretario.


Viene in mente Il servo di Losey o meglio ancora Il servo di scena messo in film da Peter Yates: insomma, l'immutabile rapporto servo-padrone, dove l'uno segue, accudisce e forse domina l'altro.

L'attore è in crisi, si scontra con quei personaggi amati e odiati, che sera dopo sera sono la sua vita e la sua condanna. Che cosa sarebbe un attore senza i suoi personaggi? Un attore vive solo nel momento in cui "fa", recita, interpreta un personaggio. La sua vita è un passaggio continuo da un personaggio all'altro: esiste solo nel momento in cui lavora (o recita, che dir si voglia). Quando si incontra un attore non gli si chiede mai "come stai?", ma "cosa stai facendo": perché è nel "fare" la sua salute, la sua vita appunto, la sua identità. Quindi ecco Jouvet, con i suoi consigli agli attori giovani della Comédie.


Ma chi sono, poi, questi personaggi? Non siamo noi stessi, semplicemente, a essere costretti a recitare un personaggio, giorno dopo giorno, nella nostre blande esistenze?

In L'ospite segreto, l'attore sopraffatto dalle ombre si chiude in sé, parla il segretario, che solerte lo invita continuamente a tornare alla vita, ossia al teatro. E per ottenere il suo scopo, il segretario non fa altro che dar la battuta, invocando o assumendo su di sé i personaggi interpretati dall'attore.


Dopo Jouvet, ecco dunque Molière: Don Giovanni e Sganarello, ma anche tutti gli altri grandi "caratteri", dal Tartufo al Misantropo, dall'Avaro a Messieur Jourdain. Una galleria di "malati immaginari" e reali, che sono riflesso delle ipocondrie dell'attore, con quella poltrona settecentesca che attraversa la scena, capace di evocare quella su cui morì - recitando - lo stesso Molière. Ecco, allora, che si insinua la favola nera dello spettacolo.

Lo spazio scenico è una sorta di stanza, un lungo corridoio, con il pubblico disposto alle due ali, ma con lucine da ribalta a delimitarlo: appena vi entra, Cacá Carvalho, che di questa vicenda è protagonista, si spoglia, svelando quel suo corpo esagerato, segnato, grasso. Resta in calzette e boxer, mentre il servo-segretario, con la sua divisina modesta e spenta, si dà da fare, compunto, per riassettare, sistemare, spostare.

Sembrano un pó Stanlio e Ollio, a vederli vicini. Tanto è dirompente l'attore, altrettanto è ritroso e ligneo il segretario: ma c'è di più. C'è la favola nera, c'è la morte, in altre parole l'affanno di quel corpo obeso: che diventa aspra e malinconica paura della scomparsa, dell'oblio, nel momento in cui - con un gioco tutto teatrale - il segretario si svela essere una bellissima fanciulla, il cui seno candido e nudo altro non è che il disperato struggente emblema della nostalgia.

Insomma, in quella bellissima donna - che recita la scena della falsa seduzione dal Tartufo - si cela la morte. A guardare quei due corpi che dialogano, illuminati dalle lucette di ribalta, si svela l'ospite segreto, il convitato di pietra, di questo spettacolo: nel canto sopra le righe, nevrastenico e disperato dell'attore, che cerca di avvinghiarsi con le unghie e con i denti alla vita, si avverte già un'eco funebre, l'amaro disincanto di chi sa che deve morire.

Cacà Carvalho conferma la sua verve interpretativa, capace di segnare inevitabilmente, nel bene e nel male, lo spettacolo mentre sorprende la mutevole grazia di Joana Levi. Visto nell'imponente nuovo Teatro Era di Pontedera, il lavoro è destinato a ulteriori sviluppi.